| O novo sabor do café
Não é mais preciso sair do Brasil para tomar um bom expresso. O País começa a tratar com dignidade um dos seus principais produtos. Entramos na era dos blends especiais e gourmets Chico Silva Entre os fatores apontados como fundamentais para essa mudança
de atitude, destaca-se o boom do café expresso. O fenômeno
impulsionou Não é exagero. Novas técnicas agrícolas, cuidados no armazenamento e distribuição, a implantação de selos de qualidade e o surgimento dos baristas, profissionais na arte de servir uma ótima bebida, são a prova de que o tratamento mudou. Mas o principal fator dessa revolução é o surgimento dos cafés especiais. Antes, exportava-se o fruto verde, que era torrado e moído no Exterior. Principalmente na Itália e Alemanha, os maiores exportadores de café industrializado do mundo. Aqui só eram fabricadas bebidas de baixa ou no máximo média qualidade. Agora, é possível encontrar ótimos cafés com o selo made in Brazil. "Aqui o café não era torrado, mas, sim, incinerado. Tudo para esconder imperfeições, como a adstringência e acidez. O brasileiro quer café forte, encorpado. Mas isso significa café escuro, muito torrado, imperfeito", conta o neozeolandês Marco Kerkmeester, proprietário do Santo Grão, um café tão elegante quanto o bairro onde está instalado, nos Jardins, em São Paulo. O lugar é especializado em servir "café gourmet", ou café de alta qualidade, como prefere o dono: "Café gourmet é uma nomenclatura ruim. Quando preparamos nosso blend não me preocupo se foi classificado como tal", conclui Kerkmeester. Termos - Há quem pense da mesma forma. Marco Suplicy,
primo de segundo grau do senador Eduardo e dono do recém-inaugurado
Café Suplicy, situado também nos Jardins, acha que
o termo é uma invenção brasileira para facilitar
a entrada do produto no mercado estrangeiro. "Café
gourmet não quer dizer nada. Gourmet é uma pessoa,
entende?", diz o empresário. A casa tem seu próprio
blend, além de vender lotes Para deleite do comandante e dos apreciadores em geral do café,
e apesar da polêmica quanto à nomenclatura, hoje
há pelo menos 100 marcas de cafés especiais e gourmet
no mercado, a maioria do Estado Mas se apenas seis rótulos têm um carimbo de excelência, como reconhecer os outros? "Como ainda é um mercado novo, a melhor maneira de identificar um gourmet na prateleira é pelo preço", diz Herszkowicz, da Abic. E o consumidor não deverá mesmo ter dificuldades para identificá-los. O quilo do café gourmet custa em média R$ 16,23. O tradicional sai quase três vezes menos: R$ 6,42. As previsões são de que nos próximos anos a procura por cafés de qualidade triplique. Não é por acaso que o café brasileiro industrializado começa a despertar interesse no Exterior. As empresas Café Bom Dia, com a marca Perfect Morning, e Coimex, com o café Brazilian Rio, entraram no disputado mercado americano. O único porém é que a valorização do café não está chegando às mãos de quem o produz. Nos últimos anos, o preço internacional do grão teve uma queda de até 70%. Os motivos? O consumo mundial caiu - até por causa da concorrência com chás sofisticados e sucos concentrados - e, na contramão, a produção aumentou. Os cafeicultores também acusam os fabricantes de estipular o preço do produto a seu favor. A exemplo do Mile Foglie, no restaurante Valle D'Aosta, em Alphaville, condomínio localizado em Barueri, cidade vizinha a São Paulo, a chef Marilene Cunha criou um faggotino di café, uma trouxinha recheada com vários tipos de queijo e molho à base de café. Para aguçar ainda mais a imaginação dos chefs, em junho passado a Associação Brasileira de Alta Gastronomia (Abaga) promoveu um concurso para eleger os melhores pratos salgados que levassem café. O primeiro lugar ficou com o restaurante Leopolldo, com o prato Saint-Jacques "en cage" à l'arôme de café as petite salade, do chef Daniel Olivier Valay. "O café é uma bebida que pode acompanhar uma refeição desde a entrada até a sobremesa", diz Jorge Monte, presidente da Abaga e idealizador do concurso. Elegante e ingrediente de pratos sofisticados, o irrequieto café
não pára. A criação do Grupo de Avaliação
de Café (GAC), do Sindicato das Indústrias de Café
do Estado de São Paulo (Sindicafé), é mais
uma prova disso. O GAC tem a incumbência de emitir laudos
que atestem a boa qualidade das amostras enviadas por fabricantes
e produtores. No ano que vem a Abic implementará o Programa
de Qualidade de Café (PQC). O objetivo é criar um
selo de qualidade para toda a indústria. A menina dos olhos
do PQC é o Sensor de Paladar, apelidado de língua
eletrônica. O equipamento, desenvolvido pela Empresa Brasileira
de Tecnologia Agropecuária (Embrapa), em sua unidade de
São Carlos (SP), apresenta uma sensibilidade de paladar
em média mil vezes mais apurada do que a de um ser humano.
A máquina foi desenvolvida com princípios da nanotecnologia
(que se baseia na utilização de átomos).
O Sensor foi projetado para analisar qualquer líquido.
Mas o café será o primeiro, graças à
parceria firmada entre a Embrapa e a Abic. Fora isso, inúmeros
concursos são promovidos para avaliar a qualidade da bebida.
É. O cafezinho nunca mais será o mesmo. Ainda bem!
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